Poema (comemorando batismo do Miguel)

February 27th, 2017 by JoeQ Leave a reply »

(mensagem de Bia)

esse poema do Leonardo Fróes, que encontrei na tese de doutorado do brilhante Luiz Guilherme Barbosa, “fala andarilha: a poesia de Leonardo Fróes em contexto crítico”, orientada pelo queridíssimo Alberto Pucheu, é daquelas coisas que eu leio como se tivesse, mais que lendo, sendo profundamente lido. um poema que, me arrancando de mim, me torna o que sou:

ADEUS À BANANEIRA OCIOSA
Eu estava plantado aqui como uma bananeira ociosa produzindo
fumaça.
Parece que a fumaça trancada não me deixava enxergar o sofrimento
dos outros.
Eu estava com a vida resolvida e marcada por hábitos tentaculares
estranhos
que me devoravam. Às vezes eu ficava um tempão virando água ou café
na beira do fogão conjugal que me igualava com ela pela boca e o
tempero. Eu
tinha medo
da mordida dos homens, e por isso comecei a descida pelo funil colossal
da
minha alma pequena. Eu não queria mais saber das esquinas
e tinha decidido virar um tigre sem manchas, com a barba de cristal e
um colarinho de ouro. Parece que eu estava chegando
a um país oriental de mentira e maravilhas de pedra.
Eu tinha decidido também que eu ia esfaquear uma nuvem para contemplar o
mistério. Ou então que eu ia construir uma asa para viajar para o sol.
Eu estava sentado aqui tramando coisas assim sob a figueira frondosa
quando porém uma criança nasceu na minha cara e chorou.
Eu não podia mais olhar para dentro porque a criança abagunçou minha
vida.
Eu não podia virar café nem água nem sombra porque a criança na
verdade
entornou o caldo dos hábitos. Primeiro eu perdi o peito da mãe
e depois eu deslizei do nirvana para a tentação do ciúme e a banalidade
das fraldas, do cheiro de bebê que entontece, das mamadeiras matinais
que
engatinham com sonoridades perfeitas.
Passei um longo tempo correndo carregando no colo esse menino e o
segundo.
Perdi a consistência do sábio que eu tinha admirado produzindo
minhocas
de mentalidade abstrata. Ganhei em troca a sensação esquisita
de estar no meio do caminho da vida sem ter porém começado.
Parece que os meninos é que vão me ensinar como se anda outra vez,
sem rejeitar o que vem quente, colorido e espantado na bandeja da hora.

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